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Perigo real no mundo virtual

Perigo real no mundo virtual

Importante ferramenta da comunicação a internet também pode oferecer riscos

Reportagem Larissa Cavalcante Especial para o Zine
Jornal Gazeta Digital – Cuiabá/MT, 2008-10-19
A internet já possui mais de 30 milhões de usuários no Brasil. Entre eles, uma parcela significativa é formada por jovens de 12 a 17 anos. Preocupada em avaliar o comportamento desse público na web, a organização não-governamental Safernet, realizou uma pesquisa com jovens de todo o Brasil. Os resultados mostraram que a maioria deles não possui restrições para o uso da internet e não toma os devidos cuidados para evitar os riscos que ela oferece.
Importante recurso para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, a internet também é um meio de comunicação e socialização, que pode auxiliar no processo de aprendizagem. Símbolo da globalização, a rede mundial de computadores representou o fim das fronteiras entre países. Apesar dos benefícios, não demorou para que a violência do mundo real invadisse as páginas virtuais.
Um dos dados mais preocupantes da pesquisa, aponta que 87% dos jovens entrevistados não sofrem restrições no acesso a internet. De acordo com o psicólogo Márcio Roberto Regis, isso acontece porque os responsáveis por essas crianças e jovens possuem a falsa crença de que só por estar em casa, em frente ao computador, o filho está totalmente seguro. “O medo da violência urbana causa essa sensação equivocada”.
A exposição de dados pessoais na internet é um dos grandes comprometedores da segurança. Os sites de relacionamento, como o Orkut, são hoje os espaços preferidos pelos jovens para estampar um pouco (ou muito) da própria intimidade. Segundo a pesquisa, 80% dos jovens participam desse tipo de site e 72% deles publicam fotos.
É o caso da estudante Maiane Carolina Ribeiro, 17, que participa do Orkut há cinco anos. Ela explica que a participação foi motivada pela possibilidade de encontrar amigos antigos e conhecer novas pessoas. Quanto às fotos, Maiane admite: “Publico várias fotos minhas. Deixo lá para quem quiser ver. Não vejo problema nisso”. A estudante não acredita que possa sofrer algum prejuízo por causa da internet. Mas ela não está sozinha. Entre os jovens pesquisados, 40% disseram que consideram a internet um espaço seguro.
O diretor de prevenção da Safernet, Rodrigo Nejm, psicólogo responsável pela pesquisa, acredita que essa é uma idéia ingênua. “Costumo perguntar aos jovens se eles distribuiriam fotos suas pelas praças e ônibus. Então, por que fazer isso na internet?”. Ele lembra que as imagens publicadas na rede ficam à disposição de quaisquer pessoas, inclusive criminosas.

Embora confie na internet, Maiane confessa que já passou por situações incômodas. “Por várias vezes fui vítima de pessoas mal intencionadas. Às vezes, uma pessoa que nem conheço me adiciona e já me convida para sair. Mas eu sempre recuso”.

Da simples amizade aos cibercrimes

O aumento dos casos de cibercrimes levou à criação de grupos policiais especializados em combater esse tipo de delito. A polícia está na cola de pessoas que utilizam a internet para praticar a pedofilia e aliciar jovens, por exemplo. Uma das táticas mais utilizadas pelos criminosos é a amizade virtual. Eles encontram a vítima em um site de relacionamento, por exemplo, e começam a conversar. Assim que podem, eles propõem um encontro. Inocentemente, muitos adolescentes aceitam.

Através da pesquisa a Safernet também pôde verificar como anda o comportamento do jovem em relação às amizades iniciadas no ciberespaço. Mais da metade dos jovens disse que possui amigos virtuais e 27% deles afirmou já ter encontrado pessoalmente, pelo menos uma vez, com alguém que conheceu pela internet. O problema dessas relações é a incerteza. Como saber se a pessoa do outro lado está dizendo a verdade?

A estudante Alini Dávalo Calman, 19, tem amigos virtuais. Ela, que fica na internet cerca de oito horas por dia, acredita que é possível fazer boas amizades através da rede. “Fiz um grande amigo pela internet. Nos conhecemos através do Orkut e começamos a conversar. Hoje trocamos confidências e conselhos. É uma relação bem legal”. Alini e o amigo ainda não se conheceram pessoalmente, porque ele mora em outro estado. A estudante afirma que não teria medo de conhecê-lo.

Mas Alini não esconde que já foi vítima de alguns inconvenientes por causa da internet. Há algum tempo, um rapaz que encontrou seu e-mail no Orkut, começou a se corresponder com ela através do MSN. “Percebi as verdadeiras intenções dele quando começou a me mandar vídeos e materiais pornográficos. Fiquei assustada e me senti perseguida”. Depois disso, Alini decidiu recusar a amizade de desconhecidos.

Outra questão avaliada pela pesquisa foi o acesso a conteúdos considerados agressivos ou impróprios para os adolescentes. Neste caso, 53% dos jovens disseram que já tiveram acesso a esse tipo de material na internet. O psicólogo Márcio Roberto Regis explica que nesta fase o interesse por sites pornográficos é normal. “Anos atrás, quando não existia a internet, todos os garotos queriam ter acesso a revistas pornográficas. A única coisa que mudou foi o tipo de mídia utilizada”.

De fato, os jovens se sentem encantados pela internet. Eles a utilizam para estudar, se informar e se divertir. Por isso, não há como os pais quererem impedir que os filhos tenham acesso a ela. Mas de fato, o acesso a conteúdos impróprios é recorrente nesse ambiente, e por isso, os pais precisam estabelecer um diálogo freqüente com os jovens. Para Rodrigo Nejm, se os jovens acessam materiais indevidos, os pais não devem ser culpados por essa situação. “Eles já têm responsabilidades demais. Cabe especialmente aos provedores controlarem melhor o tipo de material que é disponibilizado aos internautas. E o Estado também precisa estabelecer leis mais rígidas em relação ao mundo virtual”.

Recentemente o Google assinou um termo de compromisso com a Safernet e tornou-se parceiro no combate aos crimes da internet. E em breve, a ong iniciará uma nova pesquisa, que dessa vez será voltada para o público das Lan Houses. (LC)

Pais devem estar atentos

A jornalista Soraia Ferreira é mãe de Afrânio, 14, Maria Eduarda, 12, e João Gabriel, 6. Na casa da família há um computador, que é disputado pelos três filhos. “O computador é um importante meio de entretenimento nos dias de hoje. Não há como impedir as crianças de usá-lo”, diz Soraia. Ela trabalha durante todo o dia, e quando está fora de casa, utiliza a internet para se comunicar com as crianças.

Preocupada com os conteúdos que os filhos acessam na rede, ela explica que procura conversar e orientá-los. “Falo muito com eles sobre os perigos da internet”. Além do diálogo, Soraia também estabelece limites para a utilização do computador, que fica na sala de estar. A pesquisa da Safernet também constatou que 64% dos jovens acessam a internet dentro do próprio quarto, o que contraria as dicas de segurança propostas pelos psicólogos.

O Orkut tornou-se um aliado para Soraia. Ela utiliza o site de relacionamentos, do qual os filhos também participam, para ver de quem eles são amigos e o quê conversam por aí. Ela admite que sempre que pode dá uma olhada no histórico de visitas para ver os sites que as crianças acessam. “Às vezes me sinto culpada por invadir a privacidade deles. Mas é necessário”.

De acordo com o psicólogo Márcio Roberto, explicar ao filho o quê ele pode e o quê não pode fazer na internet, pode ajudar a resolver a questão. Os pais devem compreender que o uso das novas tecnologias precisa ser tratado como um acréscimo à educação dos jovens. “Os pais ensinam sobre a importância de se tomar banho diário, de escovar os dentes ou orientam seus filhos para não falar com estranhos no caminho da escola. Essa mesma educação deve ser repassada aos filhos sobre os perigos e os benefícios na utilização da internet”. Os pais devem estabelecer um vínculo de confiança, orientação e proteção ao jovem.

Como fugir das “armadilhas”

Para acessar a internet tranquilamente e evitar dores de cabeça, algumas dicas são muito importantes:

• Nunca divulgue senhas, nome completo, endereços, números de telefone ou fotos íntimas;

Pense bem antes de publicar algo. Uma vez na rede é muito difícil controlar o uso;

Evite gravar as senhas e login no computador para não facilitar roubos;

Cuidado ao baixar arquivos, eles podem conter vírus, materiais impróprios ou serem ilegais. Anti-vírus e filtros podem ajudar a proteger;

Quem utiliza os sites de relacionamentos, deve ficar atento aos seguintes cuidados:

Mantenha o mínimo de informações em seu perfil;

Você distribui seu endereço, suas fotos e telefones para qualquer um na praia, na praça, no ônibus ou no mural da escola? Porque você distribuiria na internet?

Não comente sobre detalhes de horários e lugares onde estará. Faça isto por telefone ou por e-mail apenas com quem conhece pessoalmente;

Se divulgar fotos, use aquelas que não facilitem seu reconhecimento nem mostrem endereços ou nome de escola;

O que importa é a qualidade e não a quantidade de amigos. Cuidado com estranhos;

Jamais aceite convite de encontro presencial com quem não conhece;

Troque sua senha periodicamente;

Denúncias – A ong Safernet é uma instituição dedicada a proteger e promover os direitos humanos na internet. Parceira do Ministério Público Federal, ela participa atualmente da CPI da Pedofilia. No site da organização é possível fazer denúncias e conferir mais dicas de segurança. Acesse: www.safernet.org.br

Autor: Larissa Cavalcante

Fonte: Larissa Cavalcante | Reporter do Jornal Gazeta Digital de Cuiabá/MT.
Entrevista publicada originalmente no Jornal Gazeta Digital no dia 19 outubro 2008.
http://www.gazetadigital.com.br/

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