Seção

Parceiros dando sopa na internet

Parceiros dando sopa na internet

2008-08-24

É mais fácil encontrar um companheiro na internet que em festas ou no trabalho. A afirmação é atestada por uma pesquisa realizada nos Estados Unidos com 10 mil americanos que se casaram nos anos de 2006 e 2007. Quanto mais velho o “candidato” a relacionamentos, maior a chance de encontrar o parceiro no universo virtual e não no real.

O estudo, divulgado na última edição da revista New Scientist, foi encomendado pela agência online de relacionamentos eHarmony e apontou que 19% dos entrevistados encontraram seus parceiros pela web, comparado a 17% no trabalho e 17% por meio de amigos. Dos casais com idade entre 45 e 54 anos, 31% se conheceram online. Esse número diminui para 18% na faixa dos 20 aos 44 anos. Segundo os pesquisadores, os mais jovens têm mais meios de encontrar pessoas, como na faculdade, por exemplo.

Embora tenha sido realizada nos Estados Unidos a pesquisa mostra um comportamento mundial e de todas as idades, segundo o psicólogo Márcio Roberto Regis. O especialista comenta que a rede confere uma praticidade e comodidade muito atraentes na vida atual.

“Você não precisa sair de casa, pegar trânsito, entrar num casa noturna ou balada. Sem contar que os custos são praticamente zero. Acessar sites de relacionamento e salas de bate-papo funciona como uma ferramenta, um compensador para interagir com outras pessoas. Na internet existe a possibilidade de conversar com quantas pessoas desejar, selecionar por meio de perfis, fotos ou vídeos. Conectado à web abre-se um leque enorme de possibilidades de encontrar um pretendente, por isso a facilidade de encontrar um parceiro neste meio”.

Para o psicólogo o resultado da pesquisa não reflete apenas a realidade dos que passaram dos 45 anos. Porém, para a faixa etária pode ser mais fácil encontrar alguém na internet devido a falta de tempo para ir em festas ou disponibilidade para encontrar um parceiro no ambiente de trabalho. “Outro motivo que leva os quarentões a flertar virtualmente é a possibilidade de conhecer muito mais pessoas do que no mundo real em que vivem. No presencial os relacionamentos interpessoais são muito restritos, ou seja, se resumem ao circuito casa-trabalho, trabalho-casa. Muitos usam carro como meio de transporte e consequentemente não caminham pelas ruas, assim encontram dificuldades de conhecer e flertar com outras pessoas”.

Mesmo estando um pouco distante da faixa mencionada na pesquisa a publicitária Maria (nome fictício), 31, viu na internet uma forma de encontrar pessoas se estivessem dentro do perfil que desejava para se relacionar. E parece que deu certo. Ela namora Fabiano (nome fictício), 26, há seis anos e tudo começou em uma sala de bate-papo. A publicitária comenta que achava difícil conhecer gente interessante em bares e festas onde nunca acontecia uma aproximação entre homens e mulheres.

“Eu queria conhecer pessoas legais para me relacionar e sempre entrava em salas de poesia, livros, música e assuntos afins. Cheguei a ter um contato intenso com um menino da Bahia, marcamos de nos encontrar no Rio de Janeiro mas ele não foi. Depois disso fiquei meio decepcionada e pensando que jamais conheceria de fato aquelas pessoas com quem conversava. Então um dia decidi entrar numa sala de bate-papo daqui de Cuiabá”.

O interesse pelo atual namorado foi surgindo gradativamente a cada contato. Maria conta que achou o nick (apelido) dele engraçado e puxou conversa. “Conforme os assuntos surgiam eu me impressionava mais. Lembro que na ocasião escutava uma música de Chico Buarque e comentei com o Fabiano que teceu comentários sobre o cantor. Depois ele comentou que estava cuidando da mãe que havia feito uma cirurgia. Fiquei impressionada por ele ser jovem e estar fazendo aquilo, bem diferente da maioria das pessoas com a mesma idade”.

Após conversarem bastante pela internet e trocarem telefone, Maria e Fabiano foram ao cinema e descobriram que tinham bastante afinidades. “Levei uma amiga comigo e depois do filme combinamos de sentar num bar. Ele me chamou pra ir no carro dele e a minha amiga acabou não indo ao nosso encontro. Conversamos bastante, demos uma volta pela cidade e acabamos ficando. No outro dia ele ligou e liga até hoje”.

“Relacionamentos virtuais são tão saudáveis quanto os que iniciam no presencial”, atesta o psicólogo Márcio Roberto Regis. Porém, são formas diferentes de se relacionar. “O internauta utilizará os recursos que a rede lhe proporciona para um flerte virtual. Há uma limitação. Em contrapartida os flertes presencias são mais intensos, olho no olho, é possível sentir o perfume da pessoa, ouvir a voz, abraçar, sentir o outro. Há pessoas com melhor habilidade comportamental numa vida virtual e outras na vida real”.

Mas a arquiteta Fernanda (nome fictício), 29, lembra que o virtual pode se tornar real e o casal vivenciar tudo o que um relacionamento “à moda antiga” tem para oferecer. Namorando Rafael há seis meses ela conta que passeava em uma comunidade do Orkut em busca de um passeio fotográfico. “Queria conhecer gente diferente. Na comunidade não havia tal informação, mas encontrei o Rafael e gostei. Entrei na página dele e vi que conhecia a minha cidade. Deixei um recado e começamos a conversar”.

Após 15 dias de contato virtual Fernanda decidiu marcar um encontro pessoal. “Não fiquei com medo de ser alguma armadilha. Conversamos bastante e percebi que era uma pessoa legal”.

Do virtual para o real – O psicólogo explica que não existe uma receita para evitar armadilhas ou decepções na rede. “Vai depender do feeling de cada um. O ideal é saber mais sobre a pessoa que está do outro lado, ver fotos e vídeos. Mesmo assim é possível enganar o outro com todos esses recursos que possuímos hoje. Conversar muito antes de conhecer pessoalmente é a melhor coisa a ser feita. Trocar telefones, passar endereço de trabalho e o residencial devem ser atitudes evitadas num primeiro momento. Se quiser saber mais sobre a pessoa é preciso ter segurança para então marcar um encontro no presencial, de preferencia em algum local movimentado e seguro e deixar alguém avisado por precaução”.

Regis destaca que não há um tempo certo de conversa antes de conhecer pessoalmente um flerte virtual. O que determinará o encontro é a intensidade do flerte e a frequência com que as pessoas se comunicam. Quanto maior intimidade no virtual mais rápido será o encontro real embora isso não garanta o futuro dessa relação.

O especialista lembra ainda que os riscos de procurar um relacionamento na internet, assim como em outros relacionamentos, também envolvem decepções e outros perigos, assim como podem ser bons, duradouros ou não. “Procurar relacionamentos no mundo virtual pode ser tão perigoso quanto se procurar um na vida real, mas claro que exige muito cuidado, cautela, principalmente aos internautas de primeira viagem”.

Autora: Raquel Ferreira

Fonte: Raquel Ferreira | Repórter do Jornal Gazeta Digital de Cuiabá/MT.
Entrevista publicada, originalmente, no Jornal Gazeta Digital, no dia 24 agosto 2008.
www.gazetadigital.com.br

Salvar

Top