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O tormento mora ao lado

O tormento mora ao lado

Não, não é fácil conviver bem com um vizinho cheio de hábitos diferentes dos seus. E você nem imagina o quanto deve ser difícil para ele conviver com você

Reportagem POR MARIANA SANTOS
Revista Bárbara, Edição 07/2010 | SP/SP, 25.05.2010

Relaxar no aconchego da sua casa nunca foi tão difícil. Um misterioso vazamento vindo sabe-deus-de-onde te surpreende toda vez que você entra no banheiro. Todos os dias o mesmo punhado de cocô de cachorro insiste em “brotar” bem na sua porta. E de uns tempos para cá inexplicavelmente começou a chover serragem na sua varanda. Seu vizinho pode estar por trás disso. Se você mora em apartamento, ele também pode estar pelos lados, em cima ou embaixo.

Capaz de despertar os seus mais primitivos instintos homicidas, ele irremediavelmente mora lá e – por mais que a vontade seja essa – você não tem para onde correr. A vingança da cola Super Bonder na fechadura pode até te trazer alguns momentos de prazer e a falsa sensação de que “agora sim, estamos quites”, mas a verdade é que não resolve de fato a situação. Aliás, talvez até piore muito as coisas. “Em muitos casos, as pessoas não conseguem se entender e além de brigar, trocar ofensas, podendo chegar às vias de fato, muitas vezes acabam na Justiça ou até mesmo na delegacia. São questões pequenas, mas que tomam proporções enormes”, afi rma Márcio Rachkorsky, advogado especialista em condomínios.

Acontece que o exercício da paciência não é simples, especialmente quando você é acordada à uma da manhã com a 5ª Sinfonia da Tati Quebra Barraco, num volume tão “singelo” que não é difícil materializar a funkeira no seu quarto, cantando “na madrugada, boladona”. “A história mostra diversos exemplos de difi culdade no convívio entre parentes, funcionários de uma mesma empresa, vizinhos e até entre países próximos. Viver em sociedade requer habilidades que nem todos possuem plenamente desenvolvidas”, afi rma o psicólogo e professor Luciano Leite. Mas que raios de habilidades são essas? O psicólogo responde: “Saber respeitar o espaço do outro e pensar coletivamente são atitudes de pessoas que possuem algo raro nos dias de hoje: empatia e solidariedade”.

Segundo o psicólogo paranaense Márcio Roberto Regis, especialista em psicologia clínica comportamental, “muitas pessoas enxergam o outro como uma incógnita, ‘o estranho’, diferente, por mais que sejam vizinhos de porta. Criam rótulos e ideias irracionais sobre o outro. Essa falta de esforço em relacionar-se com o vizinho é cômoda. É um comportamento de esquiva em relacionar-se, por medo de alguém que nem representa ameaça”, esclarece.

Coquetel explosivo

Segundo levantamento feito pela Polícia Militar de São Paulo em dezembro de 2008, 12% das 35 mil chamadas diárias ao 190 tratam-se de confl itos entre vizinhos, número bem mais alto do que as queixas relacionadas ao trânsito, que corresponde a 2% dos chamados. Na câmara de mediação do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP), as brigas entre vizinhos representam 45% dos atendimentos.

“Se juntarmos vida agitada com estresse e a falta de amizade, está feito o coquetel explosivo”, resume Rachkorsky. E Márcio Roberto Regis afi rma ainda que “o desgaste seria bem menor se os moradores compreendessem que erros não são sinais de fraqueza, mas fruto de um aprendizado na convivência em sociedade.” E já que não dá para simplesmente mandar guinchar a casa ao lado para bem longe da sua, que tal recorrer à cartilha da civilidade entre vizinhos e tentar resolver as diferenças na base do bom e velho diálogo? Algumas dicas dos especialistas também podem te dar uma luz.

Por dentro das regras

Para quem mora em condomínio é importante conhecer bem todas as regras: os direitos, deveres e obrigações. Para isso é preciso ler com atenção a convenção de condomínio e o regulamento interno.

Exercício de mudança

Se você vai se mudar de casa para condomínio, faça um intenso exercício mental de adequação à nova realidade. Vá se conformando que existem muitas regras, que haverá uma convivência mais próxima com os vizinhos e o respeito ao próximo é fundamental.

Esteja presente

Participe das reuniões de condomínio para que as pessoas se acostumem com as discussões coletivas e comecem a pensar menos de forma individual.

Aproxime-se

Faça amizade com os vizinhos. Assim, quando surgir um problema, será resolvido com serenidade, sem a necessidade de processos, advogados ou delegacia. Quando há proximidade entre os vizinhos tudo fi ca mais fácil. Sem contar que você nunca sabe quando vai precisar de uma xícara de açúcar, não é?

Campeão de reclamações

Fique atenta a pequenos barulhos do dia a dia que a gente nem sonha que incomodam nossos vizinhos: salto alto no piso de madeira, liquidifi cador logo de manhã, criança correndo pela casa, móveis sendo arrastados…

Seja gentil

Varrer e recolher seu lixo da calçada (para não “voar” para a calçada do vizinho), cumprimentar na saída do portão – ou portaria -, oferecer ajuda com sacolas, são atitudes simples que não doem nada e com toda a certeza fazem diferença na maneira como o vizinho a enxerga e, portanto, no seu convívio com ele.

Autora: POR MARIANA SANTOS | Revista Bárbara SP/SP

Fontes: http://revistabarbara.com.br/saude-comportamento/7/dont-worry-be-happy-voce-vai-conseguir-conviver-em-paz-174502-1.asp

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