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Internautas compulsivos

Internautas compulsivos

Especialista em vícios tecnológicos alerta sobre o uso excessivo da rede

Reportagem Ariane Bellan
Edição Luciana Galastri
Jornal Comunicação UFPR | Curitiba/PR, 12.05.2009

Novas pessoas estão aderindo à Rede Mundial de Computadores a todo instante, e os que já são usuários estão cada vez mais atraídos por seus diversos conteúdos. As últimas atualizações do Ibope/NetRatings indicam que o número de internautas no Brasil é de 41,5 milhões.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, 20% das residências têm acesso à Internet; 38% das pessoas acessam a web diariamente; 10% de quatro a seis vezes por semana; 21% de duas a três vezes por semana; 18% uma vez por semana. Ao todo 87% dos internautas brasileiros entram na Internet pelo menos uma vez por semana.

O psicólogo Márcio Roberto Regis, especialista em Clínica Comportamental, explica que essa necessidade que algumas pessoas têm em estar conectadas à Internet pode se tornar um vício. Também conhecido como compulsão por internet, ou internet-dependência, os usuários deixam sua vida pessoal e profissional de lado para ficar online por tempo ilimitado. Em entrevista ao Comunicação, Regis esclarece o assunto.

Jornal Comunicação: Por que a internet atrai tanto as pessoas? É um meio de comunicação mais propício à socialização?

Márcio Regis: A Rede Mundial de Computadores vai além da socialização. Ela proporciona aos seus usuários inúmeras atividades atrativas: alguns têm interesse em estabelecer e criar novas amizades profissionais e pessoais; outros querem encontrar parceiros virtuais e reais; muitos gostam de jogar online com pessoas de qualquer lugar do mundo; baixar arquivos; etc.

Comunicação: O usuário tem mais facilidade para se comunicar online? Por que ele se sente mais a vontade discutindo seus problemas e se abrindo a relações, principalmente com pessoas estranhas, via Internet?

Regis: Sem dúvida o internauta se solta muito mais virtualmente do que no presencial. Para não se expor tanto, muitos deles utilizam codinomes e incorporam personagens, diminuindo assim, sua exposição perante os demais. Por ser uma conversa anônima, o usuário pode confidenciar seus sentimentos e angústias sem constrangimentos. A tela do computador o protege. Possivelmente, numa conversa ao vivo, ele não conseguiria desabafar com um conhecido e muito menos com alguém que acabou de encontrar na rua. Mas num chat ou num fórum de discussão, as coisas se tornam mais fáceis. Nesse quesito, a rede torna-se forte aliada dos tímidos.

Comunicação: Por que os sites de relacionamento e programas de bate-papo estão sendo tão procurados na atualidade?

Regis: As redes sociais, como o Orkut, fazem tanto sucesso porque nelas é possível, além de encontrar velhos amigos, conhecer gente nova, com interesses e gostos em comum. As pessoas se identificam, seja por possuírem um mesmo bem material, por estarem vinculadas a uma mesma instituição, por gostarem do mesmo estilo musical, por terem os mesmos hábitos comportamentais, etc. Dessa forma, é válido trocar experiências e compartilhar informações sobre uma determinada temática. No caso do software de mensagens instantâneas, como o MSN, é permitido conversar com amigos e flertes virtuais de forma rápida e dinâmica, além da praticidade de usar microfone e webcam.

Comunicação: O twitter é o mais novo serviço de interação de pessoas na Internet. Qual é o interesse que uma pessoa pode ter em postar poucas palavras do que ela está fazendo no momento para que os outros possam ver? E qual é o interesse dos outros usuários em acompanhar esse processo? Esse intercâmbio de ações e sentimentos traz que tipo de resultados?

Regis: Acredito que o objetivo dos “twitteiros” é conquistar sucesso e popularidade entre seus seguidores e os demais. É um programa que mexe diretamente com a vaidade dos internautas. “Quanto mais seguidores eu tiver, mais respeitado serei”. São ganhos que só a internet pode oferecer aos seus usuários. A curiosidade de saber de tudo e de todos atrai os indivíduos que utilizam o serviço. Os resultados desse processo podem ser tanto positivos quanto negativos. O positivo seria, de repente, o internauta informar seus seguidores um fato importante na sua cidade antes que sejam noticiados na mídia, ou simplesmente fazer amigos, conquistar um novo emprego. O lado negativo seria a superexposição dos internautas às pessoas que nem conhecem e a perca da noção de permanência trocando mensagens.

Comunicação: As pessoas estariam se acostumando às comodidades que a Internet oferece sem perceber os malefícios que podem originar? Ou elas estariam apenas imersas em uma sociedade que exige que estejam conectados por muito tempo?

Regis: Não observo a Rede Mundial de Computadores como algo maléfico à população; ela é uma extensão da vida real, além de uma ferramenta indispensável na sociedade contemporânea. Porém, a Internet passará a comandar a rotina e interferir na vida de uma pessoa a partir do momento que esta não conseguir delimitar o tempo de permanência na frente do computador e o modo como usá-lo.

Comunicação: Existe um perfil dos “ciberviciados”? Qual o comportamento que eles apresentam?

Regis: Não existe um aspecto específico das pessoas que têm vícios tecnológicos, também conhecidos como tecnoses. Mas esses internautas costumam ser depressivos, possuem algum grau de ansiedade, ficam conectados durante horas e preferem amigos virtuais aos reais.

Comunicação: Alguns, principalmente jovens, podem alegar que usam muito a Internet porque estão em busca de distração. Quando essa distração começa a virar um problema sério?

Regis: A Internet é, com certeza, uma forma de entretenimento e lazer, mas é preciso estabelecer limites. Caracterizam problemas de excesso de seu uso: quando o usuário começa a deixar de lado as atividades que sentia prazer, descuidar da alimentação e higiene pessoal, não cumprir com seus compromissos, não praticar exercícios físicos, sentir sonolência durante o dia por ter passado a madrugada toda online, entre outros.

Comunicação: O vício pela Internet pode ser associado aos demais, como drogas, álcool e jogos? Há caso de pessoas que precisam de tratamento? Como ele é feito?

Regis: Podemos comparar o vício tecnológico com a dependência de qualquer outra droga. Existem pessoas que precisam passar por uma psicoterapia para aprender a controlar a compulsão pela Internet. O primeiro passo no tratamento é o reconhecimento por parte do internauta que sua vida pessoal e social está sendo prejudicada pelo uso abusivo do computador. O paciente deve buscar o autocontrole e retomar o convívio com outras pessoas no presencial. A diferença nas recuperações é que o computador não é retirado da vida do usuário, como a droga é retirada do dependente químico.

Fonte: www.jornalcomunicacao.ufpr.br/node/6180
twitter.com/jcomunicacao
Entrevista publicada originalmente no dia 12 maio 2009.

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