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Dossiê da tecnologia: celular dá câncer?

Dossiê da tecnologia: celular dá câncer?

O telefone móvel, apesar de funcional e muito disseminado, é motivo de polêmica na comunidade médica

Reportagem Rodrigo Batista
Edição Suelen Trevizan
Jornal Comunicação UFPR, 31/05/08 – 16h35

Útil, moderno e popular. Os toques, as músicas e os valores agregados aos celulares chamam a atenção do consumidor. Enquanto a praticidade dos novos modelos cresce, os preços caem, o que incentiva o consumo. No mês de abril deste ano, de acordo com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), quase 2 milhões de habilitações de telefonia móvel foram adquiridas no Brasil. Com aproximadamente 128 milhões de celulares em uso, a quantidade de telefones móveis do país é maior que a de fixos desde agosto de 2003.

Risco de câncer

Mesmo sendo tão útil, o celular é motivo de muitas discussões na comunidade médica mundial. Especialistas ainda não chegaram a um consenso para afirmar se esses aparelhos causam ou não doenças aos usuários. A hipótese mais levantada é a de câncer no cérebro. De acordo com o médico João Carlos Simões, membro da Sociedade Brasileira de Cancerologia, a desconfiança existe por causa das ondas eletromagnéticas, transmissoras de dados entre as antenas e os telefones móveis. “Essas radiações podem causar alteração no genoma celular. Com isso, células, tecidos e órgãos são afetados e desenvolvem câncer”, informa o cancerologista.

A preocupação maior é com relação aos moradores das zonas rurais, onde as radiações são mais intensas que na cidade. Como nesses lugares o número de antenas receptoras e transmissoras de dados é menor, a radiação precisa de mais força para chegar ao aparelho. Estudiosos buscam formas de neutralizar os efeitos das ondas eletromagnéticas nesses locais.

Além disso, a atenção dos médicos voltada para os usuários infantis aumentou, pois se trata de um público crescente de telefonia móvel – algumas empresas já têm aparelhos específicos para atender a esses usuários. Simões afirma que, como as crianças possuem células ainda em desenvolvimento, o genoma celular está mais propenso a ser afetado pelas radiações.

Alarme falso?

Simões também esclarece que, apesar do alarmismo de alguns médicos, nenhuma conseqüência do uso do celular para o organismo foi até hoje comprovada, principalmente em relação a tumores cerebrais. Para ele, são apenas especulações, pois os estudos precisam ser aprofundados para se ter certeza dos resultados obtidos. “O grupo de pessoas analisadas é sempre muito pequeno para dizer se a doença pode se desenvolver em escalas maiores”.

A médica Enilze Fonseca Ribeiro, especialista em genética, explica que as ondas transmitidas pelas antenas de telefonia móvel são radiações não-ionizantes, ou seja, que apenas causam pequeno aumento da temperatura do material no qual incidem. Essas ondas são diferentes das utilizadas em exames de raios-X – essas sim têm alto poder de ionização e mutação. “A penetração das ondas dos celulares é muito pequena para causar algum tipo de mutação genética”, afirma.

O poder de penetração de uma onda é medido através de seu comprimento. Quanto maior for esse valor, mais fraca é a onda em termos de ionização e de transformações genéticas. Os raios-X, por exemplo, possuem comprimento de onda pequeno e, por isso, podem causar sérios danos a quem for atingido. As conseqüências podem ser tão graves que pessoas que trabalham com essa radiação em laboratório devem ter período de férias a cada seis meses.

Existem alguns casos de leucemia em crianças que moram próximo a antenas de operadoras de celular. Porém, assim como Simões, Enilze afirma que o número de afetados pelo câncer é muito pequeno para que se possa ter certeza de que essas ondas são as responsáveis pelo surgimento da doença.

Simões cita algumas pesquisas que avaliam os efeitos do uso de celular feitas em diversos países do mundo. Uma delas, realizada pelo British Medical Journal (BMJ), avaliou 966 britânicos entre 18 e 69 anos, usuários de telefone móvel, e que desenvolveram, entre os anos 2000 e 2004, um glioma (tipo de tumor cerebral freqüente no ser humano). Os resultados foram comparados com 1,7 mil usuários saudáveis, e se chegou à conclusão de que o risco de câncer no cérebro não está relacionado com a duração de chamadas, freqüência de uso ou com a idade da pessoa. Mesmo assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) orientou para que os resultados fossem analisados com mais atenção.

Ainda que nada seja confirmado, Simões recomenda que os usuários tenham certa moderação quanto ao uso do celular. “Não só por causa da suspeita do desenvolvimento de tumores, mas porque tudo o que é demais nunca é bom, principalmente quando se trata das novas tecnologias”, aconselha.

Quando o celular vicia

Um problema mais concreto é o ‘vício’ que tecnologias como o celular podem causar. Segundo o psicólogo Márcio Roberto Régis, o uso dos aparelhos, por ser cada vez mais freqüente, em alguns casos, leva a pessoa a desenvolver vários níveis de dependência. Há situações em que a pessoa não consegue ficar com o celular desligado, manda mensagens constantemente, acorda durante a noite para verificar as chamadas e até aqueles que trocam de aparelhos em curtos espaços de tempo só para acompanharem os lançamentos. “Há também usuários que chegam a ficar com as pontas dos dedos calejadas por causa do uso, e gastam as teclas do telefone”, comenta Régis.

As principais vítimas desse vício são os adolescentes. A situação se agrava quando os dependentes sofrem de carência afetiva. “Esses usuários buscam no celular uma forma de manter contato com determinada pessoa para não se sentirem isolados”, explica o psicólogo. Quando afastados dos aparelhos, essas pessoas apresentam diversos sintomas como ansiedade, angústia, pânico, medo da solidão, tristeza e até mesmo falta de apetite. “O celular é importante, mas quando chega a esses níveis, o usuário deve procurar por tratamento psicológico”, alerta.

Fonte: Jornal Comunicação UFPR, 31/05/08 – 16h35.
Ano XI | Curitiba, 07 de Agosto de 2008
http://www.jornalcomunicacao.ufpr.br/node/3921

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